Fanzine de Bits

Menu
Videogames

0054_capa

Quando eu tinha 11 anos a grana era curta, mas eu tinha a sorte de que meu pai trabalhava como camelô e ia toda semana para o Paraguai. Isso era sorte? Era sim, pois quaisquer 5 reais naquela época davam pra comprar um cartucho pirata de Nintendinho no Paraguai, e me lembro de um mês em que juntei uma grana, fui com meu pai viajar e fiz a festa.

COMPREI UM LOTE

0054_18Isso era 1994, não lembro o dia nem o mês, e em uma das viagens que meu pai fazia toda semana eu fui com ele pra poder “investir” o meu dinheiro em cartuchos de Nintendinho. Eu já tinha uma caixa de sapatos cheia deles, o que pode não parecer muito, mas pra mim na época era o máximo. O final de semana chegou, lá fomos nós para Foz do Iguaçu, atravessamos a Ponte da Amizade e meu pai começou a fazer as compras dele, lista de pedidos dos seus clientes e tudo o mais. Eu só pensava nos0054_19 meus jogos, e em menos de 3 horas meu pai terminou o que precisava fazer e a vez era minha de comprar. Sempre que eu entrava numa daquelas lojas com milhares de cartuchos coloridos empilhados eu “pirava”, e daquela vez num foi diferente, porém eu tinha dinheiro, não era muito, mas era meu. Já estava com a lista na cabeça do que eu queria comprar e as que eu levei foram: World Heroes, Fatal Fury, Mortal Kombat e Cavaleiros do Zodíaco. Finalmente gastei meus 20 reais que demorei tanto para juntar, e estava feliz da vida.

A NOVIDADE POR UMA SEMANA

0054_03Já em casa eu passei a semana toda voltando da escola que nem uma bala pra poder jogar meus cartuchos novos, era uma diversão atrás da outra, só jogo de luta, tirando o dos Cavaleiros. A maioria eu terminei durante a semana mesmo, porém o cartucho dos Cavaleiros do Zodíaco era algo mais elaborado, precisava de tempo, dedicação, e eu estava ali pronto pra isso, moleque de tudo, o que eu tinha pra fazer depois de estudar era jogar, desafio aceito!

0054_06No primeiro final de semana com os jogos um primo meu foi me visitar, o Emerson, e quando ele chegou num esperei nem entrar em casa direito e já falei pra ele ao abrir o portão que eu tinha comprado o jogo dos Cavaleiros do Zodíaco. Lembro como se fosse hoje ele me perguntando: Cabeção, tem certeza? Pois eu acho que você comprou um jogo chamado Dragon Ball. Eu sabia muito bem o que era Dragon Ball, e sabia também que o jogo que eu tinha comprado era Cavaleiros do Zodíaco, porém era tão fácil naquela época alguém confundir os dois que meu primo estava certo em ter ficado desconfiado, mas a dúvida acabou rápido depois que entramos em casa e mostrei o cartucho pra ele. Preciso dizer que ele “pirou” também?

DOIS GRANDES PROBLEMAS

0054_07Como a ida do meu primo na minha casa era pra me buscar e ir passar as férias na casa dele, lá fomos nós, mala pronta, cartuchos na mochila e tchau. Passamos muito tempo jogando todos os cartuchos, junto com outros dois amigos nossos que moravam próximo ao meu primo, o Osvaldo e o Clayton. Porém, mais uma vez sobrou o CDZ pra terminar. A gente ia passando aos poucos, aprendendo as manhas e entendendo o jogo. Nossa tática era usar o cavaleiro em cada tela de acordo com o anime pra passar as fases, ou seja, o Máscara da Morte a gente ia com o Shiryu na tela e assim por diante. Funcionou bem a tática, porque cada personagem tinha vantagem com o mestre da tela se escolhido de acordo com o que vimos no anime.

0054_20A gente tinha dois problemas com o CDZ de Nintendinho, o primeiro não conseguimos resolver e nos adaptamos à ele que era o lance dos PASSWORDS, caramba que difícil era anotar aquilo, cerca de 20/30 letras em JAPONÊS para anotar como password, era MUITO FÁCIL anotar algo errado e não funcionar quando a gente fosse usar. Hoje em dia seria simples, era só tirar uma foto com o celular, mas não, estamos falando de 1994 (risos). O que fizemos então foi anotar com calma, conferir e ter certeza de que num estava errado, as letras pra ajudar eram em Hiragana, nem pra ser o Katakana que visualmente seria mais simples de anotar.

0054_10O segundo problema a gente resolveu, LIKE A BOSS, que era o fato de precisarmos de SEVEN SENSES, ou seja, a gente precisava de Sétimo Sentido que neste jogo nada mais era do que enchedor para nossa barra de life/energia. Este Sétimo Sentido se conseguia ao passar um mestre ou ao ir matando inimigos na tela, neste último caso o ganho de pontos era muito baixo, mas era uma alternativa. Falando em matar inimigos, o jogo do CDZ pra Nintendinho tinha uma característica bem interessante que era a seguinte: Se você ficar parado muito tempo num mesmo lugar umas pedras começavam a cair do céu em cima da sua cabeça e tirar sua energia, logo, isso impossibilitava de ficar matando inimigos parado, tinha que ficar movendo o personagem pra lá e pra cá.

O TRUQUE DO DUREX

0054_08Foi então que descobrimos algo legal, na tela do Máscara da Morte, quando ele te manda pro outro mundo você tem que passar uma tela inteira até voltar à sala dele pra finalmente lutar e tentar passar o mestre, mas um pouco antes de chegar no final desta tela no outro mundo havia um canto específico que ao deixar o personagem parado a pedra que caia do céu num ia direto na sua cabeça e sim um pouco à sua frente e se você apertasse o botão de soco o personagem acertava a pedra que dava 1 (um) ponto de Sétimo Sentido. Bingo! Era o que a gente precisava, foi onde deixamos o personagem parado e colocamos um durex no botão do controle pra que a cada pedra caída a gente ganhasse 1 ponto. Com a engenhoca montada ali mantivemos o videogame ligado por 1 dia e meio, torcendo pra ninguém desligar ou encostar e dar um tilt, e íamos acompanhando os pontos subirem, claro que neste meio tempo a gente saia, via TV, dormia e etc. Depois desse tempo todo a gente tinha Sétimo Sentido de sobra e garanto que isso facilitou nossa vida dali em diante.

0054_14

Continuamos tela a tela, perdemos algumas vezes, aprendemos como passar dos mestres e finalmente terminamos Os Cavaleiros do Zodíaco para Nintendinho. Como era normal quando eu passava férias na cada dos meus primos, eu terminei uma vez o jogo e o meu primo terminou outra, a gente sempre revezava as jogatinas do mesmo jogo, quase que um jogando de manhã e o outro de tarde, era muito legal. Missão concluída!

BATEU UM ARREPENDIMENTO

0054_16Uns 3 anos depois eu comecei a vender meus cartuchos de NES e SNES porque eu queria comprar o tal de ULTRA 64 que seria lançado pela Nintendo (conto esta história outro dia), e como isso fui vendendo aos poucos a minha coleção. Eu deixava os cartuchos na banca do meu pai (lembra, ele era camelô) e ia vendendo fácil fácil, e no dia em que coloquei o CDZ lá pra vender, cartuchinho amarelo, vendeu rápido. O moleque que comprou foi até um que eu via durante o intervalo numa escola que eu estudei, mas não era amigo meu até então. O cara pagou 15 reais e sumiu no horizonte, levou o meu cartucho.

0054_12Eu já tinha vendido MUITOS cartuchos ali, mas nenhum antes tinha me dado aquele nó na garganta, caramba como eu me senti mal vendendo o meu CDZ, estava quase chorando, me arrependi muito. Porém, por conta do destino, o cara volta mais de uma hora depois dizendo que o cartucho não tinha funcionado no videogame dele, eu não pensei duas vezes e já fui logo devolvendo o dinheiro dele, expliquei que podia ter algum erro mesmo e não tinha problema. Fiz a devolução imediatamente, a sorte não bate duas vezes e desta vez eu aproveitei que estava com ela. Guardei o cartucho no bolso e levei de volta pra casa.

AINDA FAZ PARTE DA COLEÇÃO

0054_15Depois daquele dia eu nunca mais pensei em vender o meu cartucho amarelo, vendi muitos outros, comprei outros tantos, mas este não saiu mais de perto de mim. Está velho, marcado, mas está comigo, ainda faz parte da minha coleção. Escrevi essa matéria com o cartucho aqui do meu lado, é onde eu deixo os jogos que normalmente uso no meu Turbo Game, sensação boa demais. Tenho muitas histórias pra contar destes anos incríveis, mas as outras vou deixar pra próxima.

Nota: O jogo do CDZ que eu falo nesta matéria é o Saint Seiya Ougon Densetsu Kanketsu Hen lançado em 1988, o que trata sobre os cavaleiros de ouro. Vale lembrar que antes desse foi alnçado em 1987 o jogo Saint Seiya Ougon Densetsu.

Tags:

Comentários

  • Felipe França

    Caro Cleber,

    Lembro-me perfeitamente de ver e rever este clássico na extinta Rede Manchete. Quanto ao jogo, também lembro dos rumores sobre ele naquela época, no entanto, nunca tive oportunidade de jogá-lo. Quando olhei a foto do cartucho na matéria acima, logo veio à memória bancas e lojas de games aqui de minha cidade repleta de fitas piratas de NES. Que nostalgia! Muito obrigado por compartilhar esta experiência conosco. Parabéns pelo blogue!

    Abraços.

    • http://www.clebermarques.com Cleber Marques

      Na época existia uma lenda de que não havia jogo do CDZ para Nintendinho, acho que tenho até uma revista Gamers que negam a existência haha. Nostálgico demais jogar e ver o anime também, tempo bom da Manchete. Obrigado pela visita Felipe, abração.

    • http://www.clebermarques.com Cleber Marques

      Na época existia uma lenda de que não havia jogo do CDZ para Nintendinho, acho que tenho até uma revista Gamers que negam a existência haha. Nostálgico demais jogar e ver o anime também, tempo bom da Manchete. Obrigado pela visita Felipe, abração.